segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Na noite mais escura...



Subo as escadas atenciosamente, a escuridão que simula o ébano impede minha visão dos degraus. Através do tato, identifico a chave no molho de chaves e coloco-a na fechadura. Giro duas vezes a chave e depois a maçaneta. A porta geme quando a abro. Adentro o cômodo e a porta volta a ranger quando fechada. Tranco-a. Caminho na direção da estante calmamente apoiado nos calcanhares. Utilizando as mãos como ponto de referência a frente do corpo. Sem muita dificuldade, encontro o que procurava com as mãos. Passo a mão na terceira prateleira de baixo para cima. Vou tateando os objetos que ali estão até encontrar o isqueiro. Com um rápido movimento na rodinha serrilhada, acendo-o e consigo iluminar com uma leve e suave luz o local que me encontro. Caminho na direção do armário abrindo a porta inferior do lado direito, pego uma caixa pequena de papelão, retiro uma vela e acendo o barbante que começa a ser consumido em chamas.

Coloco a vela em cima de uma das prateleiras da estante e marcho na direção da cama. Tiro a mochila das costas e coloco-a no chão. Sento na cama e retiro o notebook de dentro da mochila e o apoio no colchão. Levanto e coloco a mochila apoiada no pé da cama. Começo a me desvestir, colocando as peças de roupa em cima da cômoda. Pego um incenso e acendo-o no fogo que derrete a vela. Coloco o incenso no incensório. Retiro o resto da roupa do corpo até ficar totalmente despido. Sento novamente na cama, retiro o notebook da capa de proteção, e o ligo. Enquanto o aparelho está carregando os programas, pego uma garrafa d’água que deixo do lado do pé da cabeceira da cama. Sacio minha sede com quatro goles de água. Dou uma olhadela em todos os cantos iluminados do quarto, até visualizar uma toca que utilizo para dormir e manter meu cabelo trançado protegido. Ergo-me e coloco-a.

Caminho na direção da janela. Escancaro-a para que o calor daquele quarto seja dissipado. A chuva cai suavemente lá fora. O som é agradável e confortante. Aquela escuridão, devido à queda de energia, me trouxe inspiração. Queria escrever algo, escrever alguma coisa que estava perambulando minhas ideias. Digitei minha senha que estava sendo solicitada e o computador portátil carregou todos os programas. Abri uma pasta de músicas, selecionei algumas do meu arquivo e coloquei-as para tocar no aparelho. Depois abri a página do programa Word e fiquei pensando como começaria aquele escrito. Fiz uma varredura nas minhas ideias. Depois de alguns minutos comecei a escrever sobre aquele momento. Aquela escuridão era inspiradora. Meus dedos percorriam as teclas como se houvesse uma conexão íntima com o aparelho. A cada parágrafo, vírgula, verbo, acentuação, ponto final, meu momento no tempo era descrito e objetivo. Estava claro e sucinto. Detalhado com letras e palavras simples, incomuns e pensativas.
Depois de uma hora, o computador anunciou que a bateria estava para acabar. Que descuido meu, deixei de carregar o notebook no trabalho e agora estava precisando dele. Então, encerrei meu texto. Desliguei o computador e coloquei-o num canto. Cobri meu corpo desnudo com o lençol. Fiz uma oração e dormi. Fui carregado para o mundo dos sonhos naquela noite quente e chuvosa. Uma noite gostosa, pura, simples e poética.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Ela


Parada no jardim. Imóvel. Inerte. Sozinha. Ela fica noite e dia. Seus pensamentos são sua fuga da monotonia. Ela pensa na liberdade. A liberdade é o seu maior sonho. Suas idéias lhe dão asas e fazem com que seus olhos enxerguem além do horizonte.

Quando a brisa toca seu corpo, ela absorve as alegrias e tristezas do mundo. Compreende que está viva, pois consegue canalizar as vibrações do mundo. O sol da manhã toca cada canto do seu rosto. Ela abre os braços querendo absorver cada raio do astro rei. Faz daquele momento algo único.

Ela acompanha a dança das nuvens como se uma música regesse seus passos e movimentos. Ela sente os sabores que o vento carrega consigo. O vento lhe conta histórias que ele ouve nos quatro cantos do mundo. O vento é seu confidente, fazendo com que conheça o mundo mesmo estando enraizada na terra. Ela visualiza os quatro cantos do mundo através da imaginação. Sabe tudo e conhece todas as belezas que o mundo tem a oferecer, graças a sua amizade com o vento. O vento se vai e ela fica mais uma vez sozinha, mas não fica triste com isso, sabe que outros amigos vão aparecer com o decorrer do dia.

Um passarinho vem batendo asas na sua direção, ela deixa-o se aproximar. Permite encostar-se ao seu corpo. Sabe que ele vai embora em breve, mas fica feliz com a presença dele, pois não se sente sozinha nesses pequenos momentos de companhia. Ele conta histórias que a deixam curiosa, com vontade de conhecer o mundo além daquele jardim.

As nuvens aumentavam e cobriam o céu em todos os pontos. Era um presságio de chuva. Gostava da chuva, pois era outra amiga que ganhou que tinha sabedoria inigualável. Tinha história do mundo como o vento. Histórias que poucos conheciam. A chuva conhecia tudo e a todos, conhecia o céu e a terra, e ela admirava isso. Então um relâmpago soou pelo céu, e a chuva começou a cair. O passarinho bateu asas e voltou para o ninho. Pediu para a chuva contar novas histórias sobre o mundo. E enquanto molhava seu corpo na doce água do céu, ouviu histórias antigas e modernas. Sobre pessoas, países, sobre vidas, sobre lugares.

Raios e relâmpagos rascavam e ecoavam na escuridão da noite criada pelas nuvens. Mas ela não tinha medo, estava entretida com as histórias. As histórias aumentavam conforme a chuva caia. E depois de vários minutos, a chuva se despediu e se foi como um sopro. As nuvens foram dançando para o mesmo lado e o sol novamente voltou a raiar. Ela ficou ali. Molhada. Lavada. Sonhadora. Pensativa. Alegre. Tentava respirar fundo. Tentava guardar cada palavra na sua memória. Queria contar aquilo para alguém. Estava desesperada para compartilhar as coisas que tinha acabado de aprender. Como não tinha ninguém ao seu lado, ficou cantarolando algumas músicas que aprendeu com seus amigos. Seus cânticos permaneceram incessantes até o sol se despedir no lado oposto ao que nasceu. Ela ficou olhando o sol dizer “tchau” com sua última luz a tocar o céu. Estava feliz, pois a lua apareceria como uma esfera redonda e cintilante no céu. Existiam poucas nuvens no céu naquele momento. Então a lua apareceu, e iluminou de forma simples e bela à noite. Não era uma luz como a do sol, mas trazia ternura e amor naquele jardim.

Depois de alguns minutos, uma mulher se aproximou na direção dela. Ela ficou sentiu um arrepio de medo percorrer seu frágil corpo. A mulher era linda, tinha o olho com um brilho verde claro, o cabelo de uma tonalidade branca como as nuvens. Trazia algo na mão que não conseguiu identificar. A mulher se aproximou lentamente. Encostou seu nariz próximo dela. Sentiu sua fragrância e essência como uma presença forte e bela. Com medo, ela não se mexeu. Ficou sem reação e com uma leve insegurança, mas tentou não transparecer isso, queria demonstrar força e segurança. Não sentia mais medo, pois quando a mulher se aproximou, reconheceu-a. Era uma mulher que morava naquela grande casa. Sempre admirou a beleza e liberdade daquela mulher. A mulher era única. Seu sonho era ser como aquela dona. Livre e bela.

A bela mulher aproximou sua mão direita do corpo dela. E sem tomar o mínimo de cautela cortou seu dedo. As gotas de sangue denunciaram a ferida e a dor. Rapidamente, levou o dedo na direção da boca. Comprimia o dedo com a boca para tentar diminuir a dor. A solitária rosa ficou manchada com uma gota de sangue. Sentia-se impura por causa daquilo. Não entendia por que fez aquilo, por que sua beleza carregava uma arma tão perigosa que não permitia que ninguém pudesse se aproximar. Então entendeu.

Ela chorou. Chorou na silenciosa noite. Todos foram capazes de ouvir sua tristeza. A lua, os passarinhos, os insetos, animais, nuvens, vento. Ela lagrimejou e todos se comoveram com sua lamentação. Todos entendiam o motivo sem terem visto o que havia acontecido. Ela era bela, mas selvagem. Tinha a beleza e o perfume como nenhuma outra tinha. Era encantadora, no entanto seu corpo era uma arma. Carregava espinhos no seu caule. Impossibilitando a aproximação e o toque daquela mulher. Sua admiração se frustrou com a dor. Sua dor soou naquele jardim. Chorava, soluçava, deplorava-se, entristeceu-se.

Parecia que seus lamentos não teriam mais fim. Então ela olhou para uma imagem que refletia numa poça de água. Viu sua fase refletida e a lua em cima dela. A lua falava algo. Falava que seu maior sonho era ser como ela, como uma Rosa. Queria tanto poder conviver com outras rosas naquele jardim, cercado de cores e amigos. Que sempre quis ser tocada pela chuva, admirada pelo vento e capaz de ouvir as músicas dos passarinhos. Então Rosa viu que sua dor não tinha sentido, pois mesmo que não pudesse ser como aquela mulher, ela era bela e singular. Que tinha desfrutado de muitas coisas que poucos conseguiram. Então, mesmo inerte, imóvel, Rosa era feliz por ser única e poder sentir a plenitude da vida.

Ela não tem pernas, mas nem por isso é infeliz e deixou de andar por lugares desconhecidos. Ela não tem braços, mas nem por isso sorri menos e deixou de segurar coisas. Ela nunca se movimentou mais do que centímetros, e nem por isso deixou de conhecer o mundo. Ela vence suas limitações com suas qualidades. Vence suas frustrações com sua força de vontade. Ela é feliz por viver sua alegria intensamente.