| The dark Side Of The Moon |
Sentada no chão sujo da calçada. Encostada num muro de um prédio qualquer. Com o corpo tremulo, sentindo os calafrios da noite fria. Sinto-me jogada num canto do mundo, abandonada pelos meus próprios pensamentos utópicos. Olhando para o chão, não vejo nada além do escuro. Tudo ao meu redor perdeu a cor, a vida, o cheiro, o gosto, o senso racional. A noite converteu-se em trevas e solidão. A lua, que, após o crepúsculo, tinha se apresentado na sua forma mais onipotente e cintilante, foi encoberta por uma mancha e ofereceu aos meus olhos seu lado sombrio, carregado de mistérios e histórias.
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| Speak to Me |
Sinto um vento que suspira no meu ouvido direito alguns versos, os quais não consigo distinguir as letras, seus sentidos, palavras, sons e concordância verbal, pois estão sem definição. Apesar de não entender nada do que é sibilado em meu tímpano direito, sei que algo é dito por uma efígie sombria, com sua face ocultada por um capuz preto. Com uma respiração gélida e ríspida; uma aparência de morte e loucura. Tenho certeza que alguém fala para mim [Speak To Me] algo que somente eu ouço, no entanto não consigo entender o que é. Lembro das palavras da minha mãe dizendo que eu era louca. Eu sei que eu fui louca, como a maioria de nós… é muito difícil explicar por que você é louco, mesmo se você não está louco [I know I’ve been mad, like the most of us… very hard to explain why you’re mad, even IF you’re not mad…].
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| Breathe |
Lembro do tempo em que eu não tinha preocupação com nada. Não me preocupava com o tempo. Não me impressionava com as guerras nem com a fome que assolam os quatro cantos do mundo. Não me incomodava com a loucura camuflada que todos tentam esconder com suas máscaras e maquiagens. Não me inquietava com a falta de dinheiro para alimentar meus vícios. Não me desassossegava quando a alucinação das drogas abrandava. Nada me fazia tremer de medo, pois eu acreditava que viveria por muito tempo. Tempo suficiente para viver tudo isso novamente. Não tinha medo de me preocupar [Don’t be afraid to care]. Eu pulava todos os obstáculos. Aproveitava todos os momentos. Não tinha medo de errar ou de fazer. Mas, por mais que você viva e voe alto [Long you live and high you fly], o tempo nunca vai parar, mas você sim. Percebi que por mais que façamos tudo conforme o ritmo que a música ressoa você corre na direção de uma sepultura precoce [You race towards an early grave].
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| On The Run |
Antes, deslocava-me pela rua sem me preocupar com os carros que transitavam ao meu redor. Caminhava sem destino ou pressão. A esmo pela faixa de pedestre, uma simples transeunte eu era. Viva o hoje, amanhã se foi, esse sou eu. [Live for today, gone tomorrow, that’s me]. Entretanto, algo no céu me chamou a atenção, um barulho de avião desgovernado e paranóico que me fez olhar para trás e correr sem parar. Desde então, vivo a correr, procurando algo perdido no céu. Atravessando as ruas perigosas com o olhar perdido no firmamento, procurando algo que estava esperando que viesse me buscar: talvez fosse meu disco voador do além.
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| Time |
Fiquei vagando por lugares estranhos, caminhando sem rumo ou direção, com pessoas que mal conhecia. Por isso sempre ouvia as mesmas palavras das mesmas pessoas: “você desperdiça e perde as horas de uma maneira descontrolada” [You fritter and waste the hours in an off had way]. Mas eu não estava preocupada com nada, pois a vida era minha e eu fazia dela o que queria. Então fiquei perambulando num pedaço de terra na minha cidade natal [Kicking around on a piece of ground in me home town].
Depois de um tempo eu decidi voltar... Voltar para casa. Voltar para o mundo. Esperei um ônibus passar ao lado de um homem estranho que lia jornal, em que as fotos mostravam faces dobradas voltadas para o chão [holds their folded faces to the floor]. Figuro mais uma vez o relógio e ressalto que estava atrasada para voltar. O tique-taque do relógio soava um barulho ensurdecedor, porque o tempo tinha que me avisar que eu estava atrasada para a vida que já tinha principiado. Nem eu nem ninguém podíamos ficar esperando alguém ou algo que viesse mostrar-nos o caminho [Waiting for someone or something to show you the way]. A vida não para nem espera você se preparar para continuar a marcar o tempo.
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| The Great Gig In The Sky |
Mesmo voltando para casa, mesmo adaptando-me ao tempo, mesmo enganando-me com o ritmo do relógio eu continuava perdida. Devido a isso me vi imersa no vício e na insanidade mundana. Estava jogada numa escada em meio à obscuridade ejetando em minhas veias a alienação química. Sempre que usava qualquer substância ilícita, era como se uma música fúnebre tocasse bem alto, com bramidos e sons flamejantes e graciosos. Como um réquiem soturno ditado por uma sequência de acordes fabulosos de piano que anunciava a minha morte. E eu não tenho medo de morrer [And I am not frightened of dying]. Qualquer hora pode acontecer, eu não me importo [Any time will do, I don't mind]. O intróito começa com a minha despedida sem medo da morte. Por que eu deveria ter medo de morrer? [Why should I be frightened of dying?]. Não há nenhuma razão para isso [There's no reason for it], você tem que ir algum dia [You’ve gotta go sometime].
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| Money |
A morte era mais comum do que pudesse parecer. Eu já havia morrido faz tempo. Tinha cometido muitos erros no passado, que repercutiram no futuro no qual eu estava inserida. Tudo tinha ganhado cor com o dinheiro. Tudo o que eu queria, eu tinha, pois eu tinha dinheiro e isso era importante. Carro novo, caviar, sonhos de quatro estrelas [New car, caviar, four star daydream]. Dinheiro, é um sucesso [Money, it’s a hit]. No entanto, eu tive que vender meu corpo, para ter o mundo aos meus pés. Não era um preço muito alto, para o respeito que eu consegui. Dinheiro, assim eles dizem [Money, so they say] é a raiz de todo mal hoje [Is the root of all evil today]; mas, no meu caso só se tornou a solução.
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| Us And Them |
Eu vivia na penumbra, sendo a linha de frente de guerreiros prontos para morrer numa guerra qualquer, mas o duelo já tinha acabado fazia algum tempo e eu continuava presa no campo de batalha, num embate contra meu pior inimigo, eu mesma. E quem sabe qual é qual e quem é quem [And who knows which is which and who is who]. Recriei-me e reinventei-me, mas nada disso funcionou. O mundo não me aceitava da forma que me apresentava. Tinha eu que ser do jeito que eles queriam que eu fosse. Tinha eu que ser várias pessoas e, ao mesmo tempo, uma única pessoa, alguém que eu não era. Quem eu era? Estava perdida mais uma vez, caminhando por mil lugares e sem chegar a lugar algum.
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| Any Colour You Like |
Caminhando por vales tenebrosos, tentando esconder-me da chuva. De repente, meus olhos visualizaram algo belo e colorido. Num canto qualquer, a escuridão perdia para o brilho intenso de belas cores. Uma esperança plainava no ar. Então me deram uma opção: “você pode escolher qualquer cor de seu gosto [Any Colour Your Like], desde que seja uma cor do nosso gosto”. As gotículas de chuva que insistiam em cair do céu se tingiram de vermelho. As variadas tonalidades se transformaram em um único lamento. O negrume voltou a sobrepor à noite.
| Brain Damage |
Que loucura é essa. Não sei mais no que pensar. Você grita e ninguém parece ouvir [you shout and no one seems to hear]. As ideias passam pela minha cabeça e meus dedos mal conseguem reproduzir tais palavras diante do papel. Minha expressão facial parece branda e risonha, meus olhos demonstram harmonia e paz, mas é tudo uma mera tapeação. As pessoas insistem em dizer que o mal e o bem controlam suas ações, sempre com uma eloquência nas palavras que ressoam: “há alguém em minha cabeça, mas não sou eu [there’s someone in my head but it’s not me]”. Porém somos nós que tomamos a decisão de fazer ou não aquilo que circunda nossas mentes. O bem e o mal não existem, pois é tudo uma questão de ter pensamentos bons ou ruins e refletir o que é melhor no dia a dia.
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| Eclipse |
Tudo que você sente [all you feel]. Tudo que você ama [all that you Love]. Tudo que você odeia [all that you hate]. Tudo que você criar [all you create]. Tudo que você destruir [all you destroy]. Tudo que você faz [all that you do]. Tudo que você diz [all that you say]. Tudo não passa de um momento, um breve sopro no ar. Ninguém vive por viver. Nada está destinado a acontecer. Tudo é incerto e improvável. O futuro pode ser escrito hoje e ser reescrito amanhã. Ninguém controla nossas vidas, se não permitimos. Ninguém pode nos fazer infelizes ou felizes sem a nossa permissão. Passado, presente e futuro, tudo está alinhado sob o sol [and everything under the Sun is in tune], mas o sol é eclipsado pela lua [but the Sun is eclipsed by the moon].
Aquele murmúrio que o vento trouxe até mim, antes que eu desse meu último suspiro, torna-se legível para minha mente neste instante. Sou capaz de decifrar cada palavra com eloquência e sabedoria: “Se você pode ouvir este sussurro você está morrendo” [If you can hear this whispering you are dying]...
Ficha Técnica:
Criação, Fotos e Texto: E. D. Albuquerque
Modelo: Patrícia Cezarini
Edição das Fotos: E. D. Albuquerque, exceto a foto "Brain Damage" editada pelo Bruno "Ovelha" Ramos e a foto "Money" editada pela Patrícia Cezarini.
Agradecimento: Todas as pessoas que estiveram direta e indiretamente envolvidas com a criação e participação deste projeto.
Este projeto tem o intuito de homenagear a banda de rock progressivo "Pink Floyd" e seu excelente e majestoso trabalho musical "The Dark Side Of The Moon".
O texto não tem significado direto com as letras das músicas compostas pela banda Pink Floyd, e é apenas uma mera ficção. O objetivo do texto é trazer uma reflexão sobre os problemas que o ser humano costuma a colocar em embate na sua mente, como a guerra, paranóia, dinheiro, drogas, vida, alegria, et cetera.
Ficha Técnica:
Criação, Fotos e Texto: E. D. Albuquerque
Modelo: Patrícia Cezarini
Edição das Fotos: E. D. Albuquerque, exceto a foto "Brain Damage" editada pelo Bruno "Ovelha" Ramos e a foto "Money" editada pela Patrícia Cezarini.
Agradecimento: Todas as pessoas que estiveram direta e indiretamente envolvidas com a criação e participação deste projeto.
Este projeto tem o intuito de homenagear a banda de rock progressivo "Pink Floyd" e seu excelente e majestoso trabalho musical "The Dark Side Of The Moon".
O texto não tem significado direto com as letras das músicas compostas pela banda Pink Floyd, e é apenas uma mera ficção. O objetivo do texto é trazer uma reflexão sobre os problemas que o ser humano costuma a colocar em embate na sua mente, como a guerra, paranóia, dinheiro, drogas, vida, alegria, et cetera.









